29.6.08



Se eu dissesse você é meu, pelo mesmo por um tempo, seria a Glória, ho! Glória.

Sons de bandolins não faltariam, seria primavera e tudo ficaria florido,

Sim, haveria algum alarido, rajadas de vento mas, o repicar de cordas tangidas, traria a melodia, orquestrando, de modo Strawinskiado, Vivaldiando, vadiando a vida a dois, as Bachianas número 2 baqueando os corações, compassados, serelepes pela campina a capinar ou campesinos a campear cavalos e nos intervalos, beijos briosos, brioches, fantoches, fala macia, uma bacia para banhar os pés e nada faltaria para fazer companhia.

Se você fosse meu, aventureiros seríamos, companheiros, pioneiros, peregrinos, ponteiros, agulhas, espadas, ases do volante, flutuantes, movediços, mestiços mixados, sangue e carne e tudo que arde, ainda que tarde, demore, atrase, mesmo assim, que extravase, arrase ao arremeter rompante, incontido, metido a dentro, invasor, mesmo que haja dor, será a valer, levado na toada das almas lavadas, passadas a ferro e fogo, mesmo jogo, dê alento, dê sustento ao sonho.



28.6.08

INSTRUÇÔES PAGÃS

Comer o pão
Com o óleo e o sal.
Alterar o sacro ofício.
Banhar-se na pia batismal,
batizar o mal.
Babar o ovinho do cramulhão.
Aí, fritar breve ou,
Assar a pomba
Do Espírito Santo.




ORAÇÃO

Meu santoantoninho, meu santinho, sou também Antonio, como se ser homônimo nos fizesse próximos, mas como devoto, peço seu voto ao meu pedido: Abrigo pro meu coração desabrido, repartido, partindo sempre para o próximo partido, sem encontrar abrigo. Um carinho, um carinha, uma caminha com cobertor de orelha, um cafuné profundo. Pois meu mundo, confuso, profuso, difuso, difratado, pode ser compartido, partilhado, palmilhado a dois, tateado a dedos metidos adentro, entrado em mim, indo ao âmago, ao estômago, entranhas, estranha forma de amar, porque o alaúde não me ilude se não for dedilhado. Por isso venho, humilhado, de joelhos dobrados, crente, reverente, penitente, para que atentes e intercedas junto ao menino que carregas ao colo, que coloques como prioridade e torne verdade a possibilidade de um amor duradouro, porque no fundo sou casa-douro. Com tua benção, meu Santo, Santo Antonio, Casamenteiro.


LOUVAÇÃO

Ser pão
No altar do sacrifício,
Óleo e sal
Na pia batismal,
Beber o vinho da comunhão,
Aí, voar leve nas asas do Espírito Santo.


21.6.08

SOLTINHO



Sou soul!

Sou só, sou sol!

Soltinho, solfejando harpas, arpejos, soltando farpas, farsando ar de quê?

Marechal da banda, carnaval, umbanda, uma banda das boas, boa bunda!

Maior ou menor máximo ou mínimo divisor comum, comum demais, dê mais!

So so, soa assim tão mais ou menos, more or less, lesado!

Qués, qués, se não, tem quem aceite.

Azeite a cama e verá o tamanho da fama, como era grande!

Grandes coisas, África, Américo viu, foi de navio, de barco, caravela, agora é que são elas, que sei eu delas, numa delas ele dobrou o Cabo da Boa Esperança.

Ela, nunca se alcança, está sempre mais pra lá, mais adiante, ainda distante, além, mesmo de trem, será que lhe fica bem o assédio?

Que tédio, fastio fatiado feito finas fitas, desditas sem remédio, ditosas deusas, sinas assassinas.

Eleusinas celebrações à Ceres.

Segues bajulador, babador, adorador, dormente, deitado ao largo, largado na larga estrada, estreando sempre um novo espetáculo, calculo que bem aceito pela crítica, raquítica afinal, finalizo cavando sete talentos, tolamente expostos às luzes do refletor, ao calor do olhar do outro.

Há, calar!

Claro ando! Mancando talvez, mastigando pela raiz, indo a matriz, matizando fontes, subindo aos montes, mesmo que de esterco, torço, rezo terço, tróço, quase tenho um treco ou destronco um membro, se bem me lembro das micagens.

Micaretas à parte, que é arte, minha parte partida ao infinito!

A heart, arrasto um bonde por um, umbigada é bom, bondade também, vem dele, dá-lhe mais, dar-se todo, tornar-se, certamente ser um, big coração, corar, brigar, correr nunca, crer que há!



jazz

20.6.08

Hai Kai



Vem a tarde, arde amena.

Desalenta a vontade urgente do ausente beijo.


Cai a noite, vem serena.

Desce dolente o desalento do ansiado beijo.


Alta noite, cai sereno.

Dói veneno a ausência suspirada do beijo.



14.6.08

OUTONO

ENCONTRO

Ato V

Escorregaram de volta a bolha, felizes como esperanças, vertendo crianças por todos os porões.

Tão perto se sabem que jubilam-se em compactuar.

Acendem velas, incensos, banham-se demoradamente, alimentam-se de leves iguarias, inebriam-se de licores, tingem-se cores, envidados internam-se num mundo senso, tocados das peles transformadas sedas, pérolas, particulares especiarias, adamascados veludos, profundos oceanos de marinhos seres abissais, singrando aquática maciez de escarpelar às unhas, alturas aéreas, distendendo asas dilatadas, miríficas, meeiros da mesma miragem, voragem de internarem-se, inteiramente orgânicos em mundos orgiáticos, profanos, proficientes de margens tangíveis apenas pela imaginação cambiante de volátil aprofundar vigoroso em mina minerval, escorrendo lava vulcânica, orgástica urgência de eras de gestação no núcleo incandescente, indecentes, desejosos de dar ao outro o melhor, orgulhosos, mergulham-se e emergem eminentes.

- Estou inteiro, mas partido o id, o self, posso perder o prumo, os sonhos se contemplam revalidos.

- Tome minhas mãos e firme a vazante do instante, assim ele se eternizará no trono da revoada de riquezas revistas.

- Monarcas migratórias passeiam, hóspedes, pelos quadrantes de nossos mapas astrológicos.

- Loucos hunos invadiram a lógica do céu dos crentes, sem misericórdia.

- Medra em mim milagre mirabolante, a ser compartido, como o pão do sacrifício.

- Oreáde bosqueia flores ordinárias, na opulência do meu peito, para ofertar-te reverente.

- Gema essencial dos meus versos, âmago do mais puro, congela o fogo desta vela e desvela a rima.

- Encastoado em casulo encantado, o reverso é versátil ao câmbio e se apronta nubente ao nirvana.

- Nuanças macias perpassam a nulidade dos sentidos, faleço.

- Legitimemos o chamado, adiantada hora, deixemos o limbo investir épico, durmamos.

- Amém amor, amém!

NOSTALGIA





Não sei de onde sai esta nostalgia, que me comove às lágrimas, ligado a tudo que é belo, como se bala perdida, abalasse meu ser, cerzindo-me à plenitude, plangendo as cordas de todas as virtudes que habitam em mim, minando de tal maneira que me levo à beira de precipícios, hospícios, ou ao início de uma aventura que me foge a lógica e cria uma mágica, uma mística sem ética, herética, que na prática me atira ao vácuo, vagando em mim lugar que poderia ser preenchido por você, um amor.

5.6.08

ENCONTRO


Ato IV

Vão ao vestiário valorar vestes válidas à vida vigente.

Leves, como anjos, descidos recém a terra, descobrindo os haveres, os prazeres de ser gente, misturam-se aos passantes, antes, roçando, livres, ao largo das convenções, das conveniências, administrando a sapiência dos que tem a consciência leviana e a gratidão por aptidões adquiridas no acúmulo das experiências provenientes de existências anteriores, sem serem pedantes ou redundantes, nos atos ou palavras proferidas aos ouvidos descuidados dos desavisados incautos, autos de fé no porvir, atos sutis, como plumas ao vento, de vaga lembrança, mas levados como fiança de que a aliança com o divino está presente e, só a passagem, mítica, dos seres, lhes diz que tudo vale, mesmo que cale pouco fundo no conturbado dia a dia, fia teia tênue entre o visível e o que não se sabe se existe, mas persiste, nalgum canto da memória, fiapos da retórica sussurrada, levada para casa, como jóia de inestimável valor, porque imperceptível, a ser guardada num pedacinho reservado somente para preciosidades, do peito dos humanos.


DIÁFANO